Uma entrevista única
Depois do fenómeno editorial que foi a publicação da trilogia MILLENNIUM, muitos são hoje os que conhecem o nome de Stieg Larsson. Mas dele, pouco ou quase nada se sabe. Poucas fotografias, quase nenhuma entrevista, excepto esta, concedida a um jornalista da revista sueca sobre livros, Svensk BokHandel poucos dias antes da morte súbita de Stieg Larsson, em Novembro de 2004.
Lasse Winkler – O que o levou a escrever Millenium?
Stieg Larsson – Comecei em 2001 por prazer, mas era uma ideia que me andava na cabeça desde 1990. Nessa época, eu e Kenneth, meu colega na TT, a agência nacional de imprensa sueca, divertíamo-nos a inventar uma continuação para a série «Os Gémeos Investigam». Era divertido, porque os imaginávamos a conduzir a sua última investigação aos 45 anos, enfim, era a minha ideia, mas nunca foi avante. Em vez disso, optei pela Pipi-das-Meias-Altas. Que género de adulta seria ela hoje? Em que categoria a poderíamos classificar? Delinquente? De maneira nenhuma. Ela tem, simplesmente uma visão diferente da sociedade. Inspirou-me a personagem de Lisbeth Salander que, aos 25 anos, é completamente fora das normas. Não conhece ninguém, tem dificuldade em integrar-se, não tem verdadeiramente vida pessoal.
Mas, para equilibrar, há uma personagem de peso
Sim, Mikael Blomqvist, 45 anos, um jornalista brilhante que trabalha para a sua própria revista, Millennium. Mas há várias outras personagens com personalidades muito diferentes. Há muito tempo que leio romances policiais e há uma coisa que me irrita nesses livros. É que por vezes estamos perante duas personagens que não representam a sociedade em que se movem. Queria justamente evitar isso: o herói, a personagem secundária e o coro dos sem-importância. Na realidade, cada um desempenha o seu papel.
No que se refere a Millennium, parti de três grupos distintos. O primeiro gira à volta da revista e dos seus seis colaboradores. São personagens secundárias, é certo, mas que não se limitam a fazer figuração e influenciam a história. Em seguida, há o grupo em volta da Milton Security, uma empresa de segurança privada dirigida por um Croata e, finalmente, a equipa de polícias.
O que o levou a esperar até ter o terceiro livro pronto para contactar uma editora?
É difícil de dizer… mas só no terceiro volume é que a trama aparece claramente e percebemos o que se passou. Ao mesmo tempo, cada livro é uma entidade própria. Habitualmente, nos policiais, não vemos as repercussões de uma história nos livros que se seguem. Comigo, sim. Quando acabei o primeiro livro, não me pareceu urgente publicá-lo. Deixei-o repousar e depois escrevi o segundo e o terceiro inspirando-me aliás em pessoas reais. Assim, pude voltar ao primeiro livro e corrigir certos traços de carácter. Depois ainda mudei muitas coisas entre o segundo e o terceiro, porque uma personagem-chave estava ausente e fui obrigado a acrescentá-la…
Como é que escreve?
Na sua opinião, o que é que vai acontecer agora?
Escrevo muito depressa. Na realidade, escrevo os livros que gostaria de ler. … Ainda por cima, adoro ler. Evidentemente, é preciso ter coisas para dizer, pessoalmente gosto de fazer passar as minhas opiniões. É fácil escrever romances policiais, é muito mais complexo escrever um artigo de 5000 caracteres onde todas as informações têm de ser verificadas. Escrever policiais é divertido, é um género literário muito popular. No entanto, não devemos confundi-lo com a literatura comprometida ou clássica.
De facto, não espero grande coisa, mas tenho o sentimento de que estou a caminho de assegurar a minha velhice.